A promessa de uma vida de luxo na
Europa ou no Médio Oriente está a custar caro ao futebol angolano. Todos os
anos, dezenas de jovens promessas do nosso futebol abandonam o Girabola com a
promessa de se tornarem as próximas grandes estrelas mundiais. Mas a realidade
que ninguém conta nos bastidores é bem mais cruel: a maioria desaparece no
banco de suplentes, cai no esquecimento ou regressa a casa com a carreira
arruinada.
A questão que está a dividir
comentadores, empresários e adeptos nas redes sociais é simples, mas
profundamente dolorosa: os nossos miúdos estão a dar o salto cedo demais
apenas pela ganância dos empresários?
A tentação é gigante. Quando um
clube estrangeiro acena com notas de euros ou dólares, é difícil dizer
"não". Para a realidade socioeconómica da maioria dos jovens atletas
em Angola, essa proposta não representa apenas a concretização de um sonho de
infância; é a oportunidade única de mudar a vida de uma família inteira de um
dia para o outro. Contudo, a verdade nua e crua é que o futebol europeu e os
mercados emergentes do Médio Oriente não têm pena de ninguém. O futebol moderno
é um negócio de rendimento imediato e sem sentimentalismos.
O Preço da Imaturidade e o Papel
dos Agentes
Sem a devida maturidade tática, sem
preparação psicológica e atirados para culturas completamente estranhas, muitos
dos nossos prodígios enfrentam uma adaptação implacável. O resultado deste
processo precipitado é quase sempre trágico para o desenvolvimento desportivo:
- Estagnação em escalões secundários: Ficam
mofados nas equipas "B", em campeonatos de terceira categoria ou
emprestados sucessivamente a clubes sem expressão.
- Perda de anos fulcrais:
Perdem os anos mais determinantes da sua formação e desenvolvimento
futebolístico sem somar minutos competitivos em campo.
- Descarte silencioso:
Acabam dispensados em silêncio assim que a novidade passa e surge a
próxima "promessa" a custo reduzido.
Enquanto certos empresários enchem
os bolsos com comissões rápidas e com percentagens de transferências efetuadas
sem qualquer planeamento de carreira a longo prazo, o futebol nacional sofre
duas grandes e profundas estocadas:
1. O Girabola Fica Sem Brilho: Os adeptos
perdem o entusiasmo e deixam de ir aos estádios porque as grandes promessas são
vendidas antes sequer de se firmarem como titulares ou de se tornarem ídolos
locais. O campeonato perde competitividade, visibilidade e valor comercial.
2. A Seleção Perde Ritmo: Os
Palancas Negras acabam por pagar a conta. Promessas que deveriam estar a
carregar a equipa nacional chegam aos estágios sem qualquer ritmo competitivo,
fruto de meses passados entre a bancada e o banco de suplentes nos seus clubes
no estrangeiro.
A Outra Face da Moeda: As Carencias
Estruturais do Futebol Nacional
Por outro lado, há quem defenda com
unhas e dentes esta saída precoce. Os defensores desta "fuga de
talentos" garantem que as infraestruturas desportivas em Angola ainda
estão a anos-luz do que é oferecido no exterior. Argumenta-se que a falta de
campos relvados em condições, a escassez de centros de rendimento modernos, os
salários frequentemente em atraso e a fraca visibilidade internacional do
Girabola travam o potencial dos atletas.
Para este grupo, permanecer em
Angola a ganhar pouco e a jogar em condições precárias é um risco
substancialmente maior. "Mais vale estar num banco de suplentes na
Europa, a treinar com metodologias avançadas e a aprender a exigência do alto
rendimento, do que ser rei em Angola e ver a carreira estagnar aos 22
anos", argumentam vários agentes e analistas da praça.
Qual é o Caminho para o Futuro?
A linha entre o sucesso retumbante
e o fracasso absoluto no desporto-rei é extremamente fina. Ninguém duvida de
que o talento angolano é puro, abundante e indiscutível. No entanto, o talento
bruto, por si só, não sobrevive num ambiente hipercompetitivo sem a estrutura e
o tempo de maturação adequados.
Para inverter este cenário,
torna-se urgente criar mecanismos de proteção aos jovens atletas. Os clubes
nacionais precisam de se valorizar, oferecendo melhores contratos e condições
de trabalho para reter o talento por mais tempo. Da mesma forma, é indispensável
que haja uma regulação mais rigorosa e uma responsabilização ética sobre a
atuação dos empresários que operam no mercado angolano.
Até quando vamos assistir
impassíveis aos nossos melhores miúdos a trocarem a evolução sustentável no
relvado pela ilusão efémera das redes sociais e pelos primeiros milhares de
euros ganhos a partir do banco de suplentes? O futuro do futebol angolano depende
da resposta que daremos a esta pergunta.
Por: Domingos Inhembe
